A vastidão e a profunda influência de Erasmo Carlos (1941 – 2022), figura seminal na construção do rock brasileiro e ícone da música popular, foram celebradas em um espetáculo intimista no Manouche, Rio de Janeiro. Em 2 de julho de 2026, a cantora Malu Rodrigues, acompanhada por um quarteto de músicos que por anos dividiu palcos e estúdios com o próprio Tremendão, apresentou um repertório que atravessou as seis décadas da rica trajetória do artista, antecipando as celebrações pelos 85 anos que o 'Gigante Gentil' completaria em 5 de junho. O show, que recebeu uma avaliação de três estrelas, propôs uma imersão na obra do compositor, oscilando entre a reverência e a busca por novas leituras.
Uma Jornada Pela Multifacetada Obra de Erasmo Carlos
Considerado uma pedra fundamental do rock no Brasil, Erasmo Carlos se destacou não apenas pela quantidade, mas pela qualidade de sua produção musical. Sua carreira foi marcada por uma notável capacidade de transitar por diversos gêneros, partindo do rock eletrizante da Jovem Guarda para explorar o samba-rock, o soul, o funk e uma miríade de canções de amor, que se tornaram um pilar de sua discografia. O show 'Malu Rodrigues e banda do Tremendão tocam Erasmo Carlos' evidenciou essa amplitude, costurando um roteiro que revisitou clássicos e obras de fases distintas, culminando com referências ao derradeiro álbum, 'O futuro pertence à… Jovem Guarda' (2022), um retorno às origens que marcou o fim de sua jornada.
O Coração Pulsante: A Excelência Instrumental dos Músicos do Tremendão
O grande diferencial e ponto alto do tributo residiu na performance instrumental. Malu Rodrigues foi acompanhada por músicos que possuíam uma conexão profunda com a obra de Erasmo: Luiz Lopez (guitarra) e Rike Frainer (bateria) estiveram com ele por mais de uma década, enquanto Mario Vitor (guitarra) e Pedro Herzog (baixo) participaram de inúmeras colaborações. Essa intimidade com o universo musical do Tremendão garantiu uma execução impecável e uma sonoridade autêntica. A maestria foi ainda mais engrandecida pela participação especialíssima do tecladista José Lourenço, figura já habituada a acompanhar Erasmo, que adicionou camadas de sofisticação às interpretações, destacando-se na atmosfera de 'É preciso dar um jeito, meu amigo' (1971) e em um solo memorável em 'É preciso saber viver' (1968), um dos pontos altos do bis.
Entre Homens e Timbres: Participações Especiais e Vozes da Banda
O espetáculo não se limitou à performance da solista e do quarteto. Contou com a presença marcante de Leo Jaime, um artista que o próprio Erasmo Carlos chegou a apontar como sucessor nos anos 80. Jaime honrou o aval em duetos com Malu Rodrigues, interpretando 'Gatinha manhosa' (1965), canção que ele próprio regravou em 1988, e 'Sou uma criança, não entendo nada' (1974), uma das poucas parcerias de Erasmo com Ghiaroni. Além das participações de peso, os próprios músicos da banda emprestaram suas vozes a algumas canções, conferindo ao show uma textura vocal diversa e, em certos momentos, uma proximidade notável com o timbre do Tremendão. O baixista Pedro Herzog emocionou em 'Minha superstar' (1981), o baterista Rike Frainer cantou 'Gente aberta' (1971) – canção que marcou a expansão da obra de Erasmo para além da Jovem Guarda, incluindo a surpresa de 'Dois animais na selva suja da rua', de Taiguara. Mario Vitor, por sua vez, deu voz à bela 'Mulher (Sexo frágil)' (1981) e fez um dueto com Malu em 'Sentado à beira do caminho' (1969), um hino da fase existencialista de Erasmo. Luiz Lopez, guitarrista, apresentou ainda um tema autoral, 'Erasmo' (2022), composto sob o impacto da morte do ídolo, adicionando um toque pessoal e emocionante ao repertório.
Malu Rodrigues no Palco: Técnica Apurada, Interpretação Contida
Apesar do talento inegável de Malu Rodrigues, cantora e atriz com sólida formação em musicais de teatro, sua performance no tributo, embora tecnicamente afiada, por vezes se manteve na fronteira de um 'cover' fiel. A solista demonstrou boa técnica vocal e afinação, mas a ausência de uma identidade interpretativa mais marcante ou de 'digitais' próprias em sua leitura do cancioneiro de Erasmo, grande parte dele em parceria com Roberto Carlos, foi notada. Essa contenção foi percebida já no bloco inicial de rocks, como 'Minha fama de mau' (1964), 'Vem quente que estou fervendo' (1967) e 'Quero que vá tudo pro inferno' (1965), que, sem o calor incendiário que Erasmo lhes imprimia, perderam parte de sua efervescência. A delicada melancolia de 'Devolva-me' (1966) também pareceu escapar à sua interpretação. No entanto, houve momentos de acerto, como na canção 'Mais um na multidão' (2001), parceria de Erasmo com Carlinhos Brown e Marisa Monte, onde Malu encontrou o tom delicado e quase interiorizado que a canção exigia, ressaltando a capacidade do Tremendão de se reinventar após um período de menor produtividade na década de 90.
Em suma, o show 'Malu Rodrigues e banda do Tremendão tocam Erasmo Carlos' cumpriu a missão de celebrar a riqueza e a diversidade da obra do 'Gigante Gentil'. Embora a interpretação da solista por vezes tenha se mantido mais próxima da reprodução do que da reinvenção, a excelência dos músicos que acompanharam Erasmo Carlos e as participações especiais injetaram vida e autenticidade ao tributo. Foi uma noite que reafirmou a importância imortal de Erasmo Carlos para a música brasileira, revelando a perenidade de suas composições e a profundidade de seu legado para novas e antigas gerações.
Fonte: https://g1.globo.com