Um trágico naufrágio nas águas do Amazonas, próximo ao icônico Encontro das Águas, em Manaus, resultou na morte de duas pessoas, deixou sete desaparecidas e mobilizou equipes de resgate para salvar 71 sobreviventes. O incidente, envolvendo a lancha Lima de Abreu XV, que fazia a rota de Manaus para Nova Olinda do Norte, teve seu piloto, Pedro José da Silva Gama, preso e posteriormente liberado após o pagamento de fiança. Em seu depoimento à Polícia Civil, ao qual o g1 teve acesso, Gama apresentou uma versão detalhada dos eventos, atribuindo a catástrofe a uma combinação de fenômenos naturais adversos e a uma reação inesperada dos passageiros.
A Versão do Piloto: Um Cenário de Descontrole Repentino
O piloto Pedro José da Silva Gama, responsável pela embarcação, relatou que a lancha partiu do Porto Manaus Moderna, na Balsa Amarela, por volta das 12h30 da sexta-feira, dia do naufrágio. O trajeto seguia normalmente até as proximidades do Encontro das Águas, quando uma ventania súbita e intensa começou a castigar a embarcação. Segundo Gama, ao perceber a mudança drástica no tempo, ele imediatamente reduziu a velocidade. Contudo, o pânico tomou conta dos passageiros, que teriam se deslocado em massa para a proa da lancha.
Apesar das orientações para que todos retornassem aos seus assentos, a movimentação de pessoas à frente teria contribuído para a inclinação da embarcação. Gama descreveu que a lancha foi atingida por uma primeira onda de grande porte, que ele conseguiu “cortar”. No entanto, a situação se agravou quando passageiros abriram a porta da proa, permitindo a entrada de um volume significativo de água. Uma terceira onda, com a embarcação já instável e com mais pessoas na frente, teria coberto completamente a lancha, provocando seu afundamento pela proa. O piloto afirmou que, mesmo com a pane, os motores continuaram funcionando enquanto a lancha afundava.
As Consequências Humanas e o Desdobramento Legal
A tragédia deixou um rastro de dor e incerteza. Além das duas mortes confirmadas e dos sete desaparecidos, as equipes de resgate conseguiram salvar 71 pessoas, incluindo crianças. O piloto, Pedro José da Silva Gama, foi detido em flagrante logo após o resgate, mas obteve a liberdade provisória ao pagar fiança. Ele agora responderá criminalmente por homicídio culposo, que se configura pela ausência de intenção de matar, mas com responsabilidade por negligência, imprudência ou imperícia. A investigação oficial sobre as causas exatas do naufrágio está em andamento, buscando esclarecer todos os fatores que levaram ao acidente.
Relatos de Sobreviventes e Dificuldades no Resgate
Vídeos impressionantes gravados por sobreviventes à deriva mostraram pessoas, inclusive crianças, em cima de botes salva-vidas, aguardando socorro. Nessas imagens, outras embarcações próximas também foram vistas prestando assistência inicial às vítimas. Um dos relatos mais impactantes veio de uma passageira que, enquanto filmava à deriva, afirmou ter alertado o condutor da lancha para reduzir a velocidade devido ao “banzeiro”, as ondas turbulentas características da região amazônica. O piloto, em seu depoimento, também mencionou que um vendaval repentino gerou ondas de cerca de três metros que quebraram os vidros da lancha, e que as condições climáticas adversas, com ondas fortes por mais de uma hora após o naufrágio, teriam dificultado o socorro, que demorou mais de 40 minutos para chegar.
Mobilização da Marinha e Inquérito Administrativo
Diante da gravidade do acidente, a Marinha do Brasil mobilizou um robusto esquema de busca e salvamento. O Comando do 9º Distrito Naval informou o emprego de uma aeronave do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral do Noroeste, uma embarcação do 1º Batalhão de Operações Ribeirinhas e duas lanchas da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental. As operações de busca por desaparecidos foram estendidas tanto para a área do acidente quanto para as margens dos rios, contando com o apoio de mergulhadores e embarcações adicionais. Paralelamente às ações de resgate, a Marinha instaurou um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN), com o objetivo de coletar dados dos sobreviventes e apurar as circunstâncias do naufrágio, buscando determinar responsabilidades e prevenir futuros incidentes.
O naufrágio da lancha Lima de Abreu XV ressalta os desafios da navegação fluvial na Amazônia e a importância da segurança das embarcações e da conduta responsável de todos a bordo. Enquanto as buscas por respostas e pelos desaparecidos continuam, a comunidade local e as autoridades esperam que a investigação traga luz aos eventos que culminaram nesta lamentável tragédia.
Fonte: https://g1.globo.com