A madrugada deste domingo, 10 de março, foi cenário da desocupação do saguão da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) pela Polícia Militar (PM). A operação encerrou uma ocupação que durava desde a última quinta-feira, 7 de março, e envolvia aproximadamente 150 estudantes. A ação, que mobilizou cerca de 50 policiais, gerou versões conflitantes sobre os desdobramentos e levantou questões acerca do diálogo entre a comunidade acadêmica e a administração universitária.
A Desocupação e as Versões Conflitantes sobre Vítimas
Enquanto a Polícia Militar afirmou que a operação transcorreu sem o registro de feridos, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP apresentou um relato distinto. Segundo o DCE, seis estudantes necessitaram de atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Rio Pequeno, com quatro deles permanecendo internados; um dos casos mais graves incluiu a fratura do nariz de um dos ocupantes. Os estudantes denunciaram o uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes durante a intervenção policial, o que teria ocasionado os ferimentos.
Além do confronto, a ação resultou em consequências legais para alguns envolvidos. Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial, onde foi lavrado um boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após a qualificação, esses indivíduos foram liberados.
O Inventário Pós-Desocupação: Danos e Apreensões
Após a saída dos estudantes, uma vistoria no prédio da Reitoria revelou uma série de danos à infraestrutura pública. Entre as avarias identificadas pela corporação, destacam-se a derrubada de um portão de acesso, portas de vidro quebradas, carteiras escolares danificadas, mesas avariadas e prejuízos à catraca de entrada. A extensão dos danos sugere a intensidade dos momentos finais da ocupação.
Adicionalmente, a Polícia Militar informou que, durante a ação, foram encontrados e apreendidos no local entorpecentes, bem como diversas armas brancas e objetos contundentes. O material incluía facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes. A corporação reiterou seu compromisso com a apuração rigorosa de quaisquer denúncias de excesso na conduta policial e afirmou que o policiamento seria mantido na área para assegurar a ordem e a integridade do patrimônio público.
As Reivindicações Estudantis e o Posicionamento da USP
A ocupação foi motivada por uma pauta de reivindicações estudantis centradas na melhoria das condições de permanência e formação acadêmica. Os estudantes demandavam um reajuste no valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPS), aprimoramentos significativos nas moradias universitárias e melhorias nos restaurantes universitários, popularmente conhecidos como bandejões.
Em resposta aos acontecimentos, a Universidade de São Paulo emitiu uma nota oficial lamentando o ocorrido durante o processo de reintegração de posse. A instituição fez questão de esclarecer que não foi previamente informada pela Polícia Militar sobre a iminente desocupação do espaço. A USP ressaltou que, ao longo de todo o período da ocupação, manteve uma postura de permanente disposição para o diálogo e para o acompanhamento dos encaminhamentos acordados nas negociações com o movimento estudantil.
A universidade explicou que as negociações com os estudantes atingiram um limite em virtude de diversos fatores. Entre eles, o atendimento de vários itens da pauta pela Reitoria, a formação de sete grupos de trabalho para estudar a viabilidade de outros pontos, a insistência em reivindicações consideradas inviáveis ou fora do âmbito de atuação da universidade, e a presença de indivíduos externos à comunidade acadêmica nas discussões. Apesar do impasse e da desocupação forçada, a USP afirmou que permanece aberta a um novo ciclo de diálogo para consolidar o que já havia sido encaminhado, desde que seja garantido o direito de ir e vir em todos os seus espaços.
Conclusão
A desocupação da Reitoria da USP pela Polícia Militar encerra um capítulo de protestos estudantis com um saldo de controvérsias e danos. As divergências entre as autoridades e os estudantes sobre a ocorrência de feridos, a detecção de prejuízos materiais e a apreensão de itens ilícitos no prédio, somadas ao posicionamento da USP sobre o limite das negociações, evidenciam a complexidade do cenário. O episódio ressalta a tensão entre o direito de protesto e a manutenção da ordem, ao mesmo tempo em que a universidade sinaliza a continuidade do diálogo como caminho para a resolução das demandas estudantis, mantendo as portas abertas para a busca de consensos futuros.