Um levantamento inédito da Universidade Federal do Acre (Ufac), em parceria com outras instituições, trouxe à luz uma realidade preocupante sobre a criminalidade digital na capital acreana. A Pesquisa de Vitimização em Rio Branco estima que mais de 35 mil vítimas de crimes cibernéticos deixaram de registrar ocorrências nos últimos 12 meses, impulsionadas principalmente pelo medo de retaliação, vergonha ou descrença na eficácia do sistema de justiça. Os dados, divulgados recentemente, acendem um alerta para a magnitude oculta da violência no ambiente online e seus reflexos na segurança pública.
A Radiografia da Vitimização Digital no Acre
A pesquisa desenhou um panorama detalhado da criminalidade em Rio Branco, com um recorte específico para as fraudes tecnológicas. Os resultados são alarmantes: a subnotificação de crimes cibernéticos atingiu um patamar de 111,7% nos últimos 12 meses. Isso significa que, para cada caso reportado, mais de um ficou no anonimato. Além dos crimes digitais via internet, o estudo aponta que cerca de 27 mil pessoas foram vítimas de golpes telefônicos e optaram por não denunciar. Em termos de incidência, nos últimos 12 meses, 14,3% dos entrevistados relataram terem sido vítimas de fraude pela internet, 11,9% sofreram golpes por telefone celular e 8,3% enfrentaram fraudes em cartões de crédito, evidenciando a diversidade e a recorrência dessas infrações.
Os Motivos por Trás do Silêncio
A principal barreira para o registro desses crimes, conforme indicado pelo estudo, reside em fatores psicossociais e estruturais. O medo de sofrer retaliações por parte dos criminosos, a vergonha de ter sido enganado e a falta de confiança na capacidade do sistema de justiça em resolver os casos ou punir os responsáveis são elementos cruciais que levam as vítimas a optarem pelo silêncio. Essa inação impede não apenas a busca por justiça individual, mas também a compilação de dados precisos que são essenciais para a formulação de políticas públicas eficazes no combate à criminalidade tecnológica.
Metodologia e Amplitude do Estudo Inédito
A "Primeira Edição da Pesquisa de Vitimização em Rio Branco" foi um empreendimento robusto, liderado pelo Grupo de Pesquisa Sujeitos, Ações e Percepções: Estudos em Violência e Conflitualidade da Ufac, sob a coordenação da professora Drª. Marissol Brandt e com o professor Dr. Ermício Sena como coordenador do estudo. Para a coleta de dados, o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) foi contratado por meio da Fundação de Apoio e Desenvolvimento Ensino e Pesquisa Universitária no Acre (Fundape). Entre fevereiro e abril deste ano, 800 pessoas com idade a partir de 16 anos foram entrevistadas em diversas regiões da capital acreana. O lançamento dos resultados ocorreu em um seminário no Tribunal de Contas do Acre (TCE-AC), sublinhando a seriedade e o impacto institucional da pesquisa.
O Impacto da Subnotificação nas Políticas Públicas
A invisibilidade desses crimes, gerada pela subnotificação, tem implicações diretas na capacidade do Estado de proteger seus cidadãos. O professor Dr. Ermício Sena ressaltou que "no caso dos crimes tecnológicos, através do telefone e internet, na medida que você tem essa subnotificação levantada e registra, você ajuda as políticas públicas". A Conselheira Naluh Gouveia, do TCE-AC, corroborou essa preocupação, criticando a ideia de que uma cidade ou estado é seguro quando, na realidade, "essa cifra está escondida". Ela enfatizou que os números revelados pela pesquisa representam situações reais e urgentes enfrentadas diariamente pela população, destacando a necessidade de transformar os dados em ações concretas para aprimorar a segurança pública e a justiça.
A pesquisa de vitimização em Rio Branco expõe uma faceta alarmante da segurança pública, onde a dimensão real dos crimes cibernéticos é significativamente maior do que os registros oficiais indicam. O desafio agora é superar as barreiras do medo e da descrença, incentivando a denúncia e, concomitantemente, capacitando as instituições a responder de forma eficaz. Somente com a visibilidade completa do problema, aliada a um sistema de justiça mais acessível e confiável, será possível construir um ambiente digital mais seguro para a população do Acre e garantir que as estatísticas reflitam a verdadeira face da criminalidade, permitindo a criação de estratégias de combate verdadeiramente efetivas.
Fonte: https://g1.globo.com