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Crimes Enigmáticos e A Sombra dos Serial Killers: Os Casos Que Marcaram Manaus

G1

Manaus, capital do Amazonas, guarda em sua memória coletiva histórias que transcendem a rotina e se inserem no campo do mistério e do terror. Para além das celebrações de Halloween, a cidade testemunhou episódios reais de violência que deixaram marcas profundas, com investigações desafiadoras e a persistente questão sobre a presença de assassinos em série. Esses crimes, por suas características incomuns ou pela brutalidade, se tornaram parte da história policial da região, gerando discussões e temores que reverberam até os dias atuais.

O Enigma de José Osterne de Figueiredo: Três Décadas de Suspeitas

Um dos capítulos mais antigos e debatidos da crônica policial manauara remete às décadas de 1950 e 1960. Nesses anos, o nome do comerciante cearense José Osterne de Figueiredo foi persistentemente associado a uma sequência de três assassinatos que, embora separados por longos intervalos, possuíam traços perturbadores em comum. A presença de Osterne nas cenas dos crimes ou sua ligação indireta com as vítimas transformaram-no no principal suspeito, alimentando um mistério que perdurou por gerações.

O primeiro incidente ocorreu em 1953, quando Anacleto Gama, um biscateiro que trabalhava e dormia na alfaiataria de Osterne, foi encontrado morto durante a madrugada. A vítima estava nua e em uma poça de sangue. Dois pares de sapatos pertencentes a José Osterne, com vestígios de sangue, foram achados próximos ao corpo, levando à detenção do comerciante para averiguações e, posteriormente, ao fechamento de seu estabelecimento devido à grande repercussão do caso.

Cerca de um ano após o primeiro crime e já em um novo empreendimento, Osterne se viu novamente no centro de uma tragédia. Após adquirir a mercearia de Antônio Germano Dias, o antigo proprietário foi encontrado assassinado um dia depois da transação, também nu e em meio a uma poça de sangue. A perturbadora repetição das circunstâncias do crime, com José Osterne presente no cenário logo após o fato, reforçou as suspeitas contra ele.

Em 1968, a série de eventos macabros teve outro desdobramento com a morte do engraxate Walderglace Grangeiro, de apenas 13 anos, encontrado estrangulado no bairro Parque Dez. As investigações revelaram que o veículo utilizado no crime pertencia a José Osterne, e a mãe do jovem relatou à imprensa que o comerciante frequentemente oferecia emprego ao filho. Embora não tenha sido preso nesse momento, a ligação com Osterne se tornou mais um elemento na cadeia de indícios.

As características dos três assassinatos, que incluíam relatos de sadismo e agressões sexuais, apontavam para um padrão inquietante, levantando a hipótese de que Manaus poderia ter sido palco da atuação de um assassino em série. Contudo, apesar de quase duas décadas de investigações, as evidências não foram suficientes para uma condenação definitiva. José Osterne foi absolvido da morte de Walderglace e os demais crimes prescreveram por falta de provas. Ele faleceu em 1977, sem nunca ter sido formalmente condenado, deixando para trás a dúvida insolúvel sobre sua real inocência ou culpa.

A Série de Crimes Homofóbicos e a Prisão dos Irmãos Damascena

Em uma página mais recente da história criminal da cidade, a década de 2010 foi marcada por uma onda de assassinatos que visavam homens homossexuais em Manaus. As investigações, iniciadas em novembro de 2013, culminaram na prisão de Jucenildo Soares Damascena, de 18 anos, e Ricardo Damascena Cunha, de 19, em 2014, suspeitos de estarem por trás de uma série de ataques brutais.

O ponto de partida para a elucidação desses crimes foi a morte do estudante de jornalismo Steve Host da Costa Barros, de 36 anos, em 29 de novembro de 2013, na Zona Leste da capital. Segundo o que foi apurado pelas autoridades, Ricardo Damascena conheceu a vítima em um bar. Vinte dias após esse encontro, Steve foi assassinado e roubado, com a colaboração do irmão mais novo, Jucenildo.

A frieza dos suspeitos chocou a sociedade. Durante a apresentação à imprensa, Ricardo Damascena expressou de forma chocante sua falta de arrependimento pelo crime, declarando: “Matei ele porque me prometeu dinheiro e não me deu. Não me arrependo. Morreu, morreu. É menos um gay.” Essa declaração explícita revelou não apenas a motivação do roubo, mas também um viés homofóbico que amplificou a repulsa e a consternação em torno dos casos.

Além de Steve Host, as investigações atribuíram aos irmãos a autoria de outros crimes com modus operandi semelhante, incluindo a morte de Henrique Júnior Rabelo Maio, de 31 anos, encontrado em um hotel na rua Floriano Peixoto, no Centro de Manaus, em 18 de novembro de 2013, e outras vítimas identificadas. A prisão dos irmãos trouxe um desfecho para esses crimes, mas deixou um rastro de dor e alerta sobre a violência motivada por preconceito.

Outros Casos Emblemáticos na Linha do Tempo Criminal de Manaus

A história de Manaus também registra outros episódios que, de diferentes formas, marcaram a esfera criminal da cidade. Na década de 1980, por exemplo, a capital amazonense foi confrontada com a sombra de uma suposta organização de justiceiros, conhecida como “Mão Branca”. Este grupo anunciava sua chegada para vingar crimes que, em sua visão, teriam sido acobertados ou negligenciados pelas forças policiais, gerando um clima de apreensão e insegurança generalizada.

Mais recentemente, em 2023, Manaus novamente se viu diante da possibilidade de um assassino em série com a prisão de um homem identificado como “Giban”. Suspeito de matar três mulheres no Amazonas, Giban foi classificado pela Polícia Civil como um serial killer, demonstrando que a complexidade e a brutalidade de certos crimes continuam a ser um desafio para as autoridades e um ponto de inquietação para a população.

Um Legado de Mistério e Respostas Incompletas

Os crimes que pontuaram a história de Manaus, desde as décadas passadas até os dias atuais, representam um capítulo sombrio, mas inegável, na trajetória da cidade. Eles ecoam a complexidade da natureza humana e os desafios perpétuos da justiça. Casos como o de José Osterne, com sua ambiguidade eterna, e a brutalidade dos irmãos Damascena, com suas confissões geladas, assim como a atuação de grupos de justiça paralela e o surgimento de novos serial killers, moldaram a percepção de Manaus sobre a segurança e a impunidade.

Esses episódios, embora muitos tenham tido um desfecho judicial, ainda carregam consigo questionamentos e cicatrizes na memória coletiva. Eles servem como lembrete da constante busca por justiça, da evolução das técnicas de investigação criminal e da necessidade de entender as profundezas da violência para construir uma sociedade mais segura. A história criminal de Manaus, portanto, é um mosaico de dor, mistério e a incessante procura por respostas em meio à escuridão.

Fonte: https://g1.globo.com

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